sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Sindrome de Rett na Fisioterapia

Definição:

Conjunto de sintomas que aparecem na infância e conduzem a uma severa e complexa descapacidade em contraste com o desenvolvimento normal temporal sem uma explicação etiológica. Pode-se considerar como um "transtorno secundário do movimento" devido a não haver debilidade ou dano nas áreas motoras primárias, porem nos mecanismos usados para o controle final das informações do córtex cerebral.

Considera-se também  um "transtornao do desenvolvimento", igual ao autismo, na forma seqüencial de mecanismos neurais seletivos cruciais para o desenvolvimento do lactente e da criança. É visto como o "transtorno neurológico complexo".

 

Histórico

É um transtorno neurológico de origem genética. Foi descoberta em 1966 pelo Doutor Andréas Rett de Viena, Áustria, em uma publicação alemã. Graças causa da relativamente pequena da circulação do artigo, a maioria dos médicos não tiveram conhecimento da enfermidade. Ao final de 1983, Dr. Bengt Hagberg da Suécia junto com outros colegas da França e de Portugal publicaram em inglês, numa revista de grande difusão, uma revisão da Síndrome, que comprendia 35 casos. No ano seguinte, uma conferência em Viena, documentos clínicos traziam dados bioquímicos, fisiológicos e genéticos. Em janeiro de 1985 o Dr. Rett visitou o Instituto John F. Kennedy para meninos inválidos em Baltimore, Maryland,onde o Dr. Hugo Moser organizou a primeira conferência nos Estados Unidos.

A Associação Internacional da Síndrome de Rett conseguiu que o Dr. Rett examinasse 42 meninas diagnosticadas como casos ponteciais da síndrome. A reunião levou a um aumento intenso do conhecimento da síndrome e seus formatos, e mais suas formas de manifestações nos Estados Unidos. A maior família familiaridade com a síndrome melhorou o diagnóstico.

 

Diagnóstico

O diagnóstico é conseguido com base no diagnóstico clínico. Fundamenta-se nas informações das primeiras etapas de crescimento da menina e do desenvolvimento e evolução continua da história médica e do seu estado físico e neurológico. O diagnóstico clínico é confirmado com o estudo genético de mutações no gen MECP2. É necessário que a menina apresente tanto o quadro clínico como a anomalia genética.

 

Alterações de desenvolvimento

O desenvolvimento da menina é normal até os 6 e 18 meses de vida, momento em que se inicia a regressão.A menina com Rett se senta e come com as mãos e na idade normal, algumas pronunciam palavras ou combinações de palavras. Muitas destas meninas caminham sós na idade normal, outras apresentam incapacidade de caminhar. Tem um período de regressão e estacionamento, além de perderem o uso das capacidades manuais que substituem por movimentos repetitivos das mãos, chamado de "lavado de mãos", que chegam a ser constantes, estereotipias.

O desenvolvimento intelectual se retrai gravemente e muitas vezes são diagnosticadas erroneamente como autistas ou paralisia cerebral. O comportamento autista diminui com a idade e as meninas se voltam mais carinhosas com a vista e o rosto mais expressivo.

 

Causas e alterações genéticas

As causas fisiológicas da síndrome não se conhecem ainda, mas tem-se conseguido grande avanço em recente descobertas de sua causa genética.

O gen responsável pela enfermidade, ao menos em 70% dos casos, é o MECP2, que se encontra no cromossomo X. A função deste gen é regular o funcionamento de outros genes e se supõe que tenha um papel fundamental no desenvolvimento do cérebro.

O conhecimento do gen, atualmente é uma ferramenta de suporte para o diagnóstico clínico, inclusive para o diagnóstico pré-natal. Há que continuar investigando para se chegar a conhecer os mecanismos patológicos que dão lugar a enfermidade e encontrar um tratamento no futuro.

O conhecimento da causa genética é só o primeiro passo para esta largo caminho.

 

Estágios

 

Estágios:

Estágio I: Para temporal do desenvolvimento: a idade de começar está entre os e 18 meses. Parada do desenvolvimento não claramente anormal,  pode durar desde semanas a meses.

Estágio II: Regressão rápida do desenvolvimento: se inicia entre o primeiro ano e o quarto. Se evidencia uma clara deficiência mental e perdem as habilidades de linguagem e comunicação previamente adquiridos. O nível motor vai deteriorando as habilidades manuais e ainda se mantém contato ocular, algumas vezes pode parecer desviado. 15% pode apresentar crises epiléticas.

Estágio III: Período pseudoestacionário: se recuperam algumas das habilidades comunicativas e aparentemente algumas das habilidades motoras, a regressão motora é lente. Destacada-se aparecimento de apraxias e dispraxias manuais. Pode durar vários anos

Estágio IV:

Deterioração motora tardia: considera-se estagio quando cessa o movimento , existe grande incapacidade multideficitária, escoliose e pés distróficos. Melhoria leves em contato emocional e social. Se nunca havia conseguido marcha autônoma, fala-se em estágio IVB, mas se já havia conseguido andar previamente denomina-se estágio IVA.

 

Formas clínicas atípicas:

Forma "Frustre": considera-se a mais freqüente, paciente com desenvolvimento inicial normal, começando o processo regressivo mais tarde e menos intenso que a forma clássica. As estereotipias podem estar ausentes ou ser atípicas. A desaceleração do perímetro craneal é mais lenta e nos primeiros anos de vida é difícil suspeitar de um SR, podendo preservar-se habilidades aceitáveis e intenso e também a linguagem.

Variante com a linguagem conservada: conservam algumas palavras ou frases, apesar do estágio II perder a funcionalidade comunicativa.

De começo precoce com crise: reconhecida na Conferência Internacional de 1984, caracteriza-se pela apresentação inicial de crises comiciais (espasmos infantis), evoluindo para um SR clássico. Existe epilepsia com resistência ao tratamento.

 

Síndrome de Rett congênito:

Foi descrito pela primeira vez em 1985, é muito discutida já que não cumpre com o segundo critério do diagnóstico: mostra anormalidades de desenvolvimento desde o nascimento (hipotonia).

Variantes com regressão na infância tardia: só se diagnosticam com o retardo mental moderado, não especificado, ou meninas com transtorno autista. Posteriormente desenvolvem a clínica típica do SR. Só se confirma o diagnóstico aos 20 ou 25 anos.

Em estágios muito avançados (III e IV) aparece uma alteração dos neurônios motores pequenos que só se manifestam por uma atrofia muscular mais distonia e afeta igualmente a medula (mielopática). Entre um ano  e meio perde-se a motricidade fina. Deteriora-se as capacidades intelectuais e a comunicação em questão de meses ou dias, onde é marcado por desinteresse pelo meio incluindo pelos pais. Igualmente se instala o estágio II da enfermidade, consolidando-se a enfermidade.Desaparece a finalidade funcional das mãos, transformando-se em um padrão de movimentos característicos para cada menina. Perde-se a habilidades práxico-manuais, as verbo-orais e instaura-se o retardo mental grave e passa-se a suspeitar de patologia cortical das áreas frontoparietais secundárias  e terciárias implicadas no processo de integração motoras. Enfoques de tratamiento

 

Tratamento e Fisioterapia:

O tratamento dos problemas motores no SR, se baseia em uma intervenção multidisciplinar com o objetivo de manter e potencializar ao máximo as funções motoras, não há cura, mas tem caráter de prevenção.

Fisioterapia: O objetivo é manter ou aumentar as habilidades motoras, desenvolver ou conservar as habilidades de transição, prevenir ou reduzir deformidades. As condutas e autonomia, sempre dependerão do estágio da síndrome.

Terapia ocupacional: O objetivo é ajudar a fomentar o uso do corpo especialmente das mãos.

 

Logopedia: A SR afeta a linguagem expressiva (comunicação com os demais). Muito mais que a linguagem receptiva (compreensão). A apraxia e outras funções motoras se combinam com a falta de uma linguagem corporal efetiva, que resulta melhorar a comunicação funcional. Para tanto o objetivo é lograr a comunicação mais funcional possível através de diferentes sistemas alternativos de comunicação.

Musicoterapia: Escutar e fazer música tem um efeito positivo sobre as funções cerebrais, incrementando a circulação do sangue, glicose, e do oxigênio, provocando uma estimulação até a aprendizagem. Esta terapia influe nas mudanças dos padrões de comportamento e na intervenção voltada a aquisição  de capacidades musicais como a comunicação, e de eleger habilidades  motoras, criando um marco adequado para o desenvolvimento sensosio-motor, e o crescimento emocional e social.Tem muitos bons resultados para o tratamento do SR.

                Hidroterapia: O movimento espontâneo é mais fácil na água e na hidroterapia, promove um ampla gama de movimentos e reduz . Igualmente ocorre com as dificuldades sensoriais e perceptivas, já que na água se consegue um melhor equilíbrio sem vacilações e medos. Contribui  para a saúde dos músculos e nervos, contrariando a inatividade no solo, melhora a saúde global e o bem-estar além de potencializar a capacidade de aprendizagem.

Hipoterapia: ajuda o equilíbrio, força muscular e minimiza o uso estereotipado das mãos, aumentando o uso funcional e ajuda a estabelecer um padrão de locomoção adequado. Carinhoterapia: a terapia do amor é a base de todas as terapias, inclui a aceitação , proteção, paciência, tolerância e compreensão. Tem-se que começar a reconhecer-la como membro importante da família, da comunidade, de nosso mundo.

Na Sr, existem uma infinidade de alterações somáticas nos diferentes órgãos e sistemas que precisam de um seguimento clínico e perto, para melhorar a qualidade de vida das meninas, adolescentes e adultas e para poder conservar a capacidade de marcha e a independência relativa que esta representa no maior grau possível. É um transtorno com múltiplas incapacidades que necessitar de tratamento e assistência de diversos especialistas. Conhecemos muito pouco sobre programas educativos, porém devemos buscar alternativas que ajudem a estas meninas a uma integração escolar e a qualidade de vida.

 

Equinoterapia: Associa a integração de quatro âmbitos profissionais diferentes: medicina, psicologia, pedagogia e o suporte das demais funções terapêuticas que tratam as disfunções psicomotoras, sensoriomotoras e sociomotoras. O valor terapêutico tem grande importância na área neuromotora, psicoafetiva e pedagógica porque desenvolve no ser humano qualidades sociointegrativas como a comunicação análoga (não verbal), tolerância, paciência e o sentido de responsabilidade, promovendo a integração da equinoterapia a área educativa, especialmente a educação especial.

 

 

PRINCIPIOS TERAPÉUTCOS

São três:

1-Transmissão do calor corporal: o calor que transmite o cavalo é aproximadamente 38ºC, é utilizado para distender e relaxar a musculatura e ligamentos e estimular a sensopercepção táctil, ademais o maior fluxo sanguíneo estimula o sistema circulatório beneficiando em geral, a função fisiológica dos órgãos internos. O valor psicoterapêutico é que o calor do cavalo adquire grande instrumento psicoafetivo. Em pacientes com disfunções psicoafetivas pode-se invocar experiências de regressão desta condição.

2-Transmissão de impuldos rítmicos: O cavalo transmite impulsos rítmicos na cintura pélvica, na coluna e nos membros inferiores. A motricidade do ser humano se realiza por meio de estímulos dados desde a periferia o que proporciona estímulos fisiológicos que regulam o tônus muscular e desenvolvem o movimento coordenado. O valor psicoterapêutico é que provocam toda uma gama de experiências psicosensoriais que se aproveitam na área psicológica. A sensação de impulso adiante restabelece a confiança no próprio eu que fazem com que o paciente experimente novas reações psicológicas em relação com si mesmo e o meio.

3-Transmissão de um padrão de locomoção tridimensional equivalente ao padrão fisiológico da marcha humana. Adquire grande importância no tratamento de disfunções neuromotoras  como a paralisia cerebral. O cérebro humano não só registra movimentos isolados, como todas uma gama de padrõs motores. O padrão motor fisiológico da marcha humana que o paciente realiza durante a monta se grava no cérebro e com o tempo se automatiza, o que possibilita sua transferência a marcha pedestre.

 

Efeitos terapêuticos:

Se referem aos benefícios que proporciona o uso da equinoterapia nas diferentes áreas:

NEUROMOTORA

-Regulação do tônus muscular.

-Inibiçao dos reflexos tônicos e movimentos associados.

-Gravaçao e automatização do padrão de

 

SENSOMOTORA

-Desenvolvimento da sensopercepção tátil

-Desenvolvimento do sistema proprioceptivo

-Fomento da integração sensorial (tátil, visual, auditiva)

-Desenvolvimento da consciência e imagem corporal

 

PSICOMOTORA

-Estabilização do tronco e da cabeça

-Desenvolvimento do equilíbrio horizontal e vertical

-Construção da simetria corporal

-Fomento da coordenação psicomotriz grossa e fina

-Desenvolvimento da lateralidade

-Incremento de elasticidade, agilidade e força muscular

 

SOCIOMOTORA

-Desenvolvimento da comunicação análoga e verbal.

-Aumento da concentração e da atenção

-Confronto de temores pessoais

-Incremento de auto-confiança e auto-estima

-Desenvolvimento da vontade

-Incremento da autoconfiança e auto-estima

-Diminuição da agressividade

-Desenvolvimento de comportamento cooperativo

-Desenvolvimento da responsabilidade

-Aumento da capacidade de adaptação

 

EFEITOS FUNCIONAIS

-Estimulação do peristaltismo

-Estimulação do sistema circulatório

-Estimulação do sistema respiratório

 

Estudo de caso

Síndrome de Rett, 15 anos de idade

História clínica:

Idade de início da terapia 14 anos.

Idade de diagnóstico e dos primeiros sinais do SR: 2 anos e 6 meses.

Sinais iniciais: perda da atenção e da linguagem, estereotipia das mãos e perda do uso funcional.

Antecendentes: Parto Cesário por posição sentada do feto e não dilatação do colo do últero. Nasceu sem sofrimento fetal, 5,8Kg. Teve desenvolvimento normal, apesar de começar a caminhar aos 18 meses por sobrepeso.

Tratamento: Só farmacológico, com carbamazepina (Tegretol ou Tanfedin), nunca fez Fisioterapia ou psicopedagogia.

N. chegou no mês de fevereiro de 2003, aos 14 anos, quando começou a realizar uma experiência com hidroterapia. una experiencia con hidroterapia. Realizou exercícios físicos pela primeira vez. Evoluiu com hipertonia em membros superiores e inferiores, uma marcha atáxica e com tendência a lateralidade e a cabeça baixada, não tinha reflexos de proteção, não fixava a visão, hiperventilava e tinha temores ao se aproximar de pessoas desconhecidas; se auto lesionava quando aumentada a ansiedade, tinha escoliose, movimento esteriotipado de lavagem das mãos, não controlava os reflexos esfincterianos, entretenimento dentre outros sintomas.

Partindo de suas dificuldades particulares que resultava em dificuldade cognifiva moderada, interrupção da atenção, ataque de pânico, transtornos do tônus muscular e uma dificuldade para os movimentos voluntários, apoiados em suas características positivas que são interesse pelas pessoas, por sons, músicas, conservação do poder cognitivo apesar de reduzido severamente, porem permite alguma capacidade de recepção de estímulos sensoriais, discriminação, cooperação e comunicação, e sabendo-se dos benefícios do movimento rítmico do cavalo, como portador de informação neuro-sensorial, e incidindo no aumento da plasticidade cerebral e substituição dos neurônios mortos por falta de estimulação física e  cognitiva durante 14 anos anteriores, traçou-se os seguintes objetivos e metas terapêuticas:

-Intervenção centrada no retardo.

-Comunicação através do contato com a visão, ritmo, tato e sons musicais.

-Redução da apraxia

-Melhora da coordenação e da estabilidade

-Redução das atividades espásticas.

-Melhorar a sensibilidade proprioceptiva

-Manter a habilidade para caminhar tanto quanto seja possível

-Desenvolver ou conservar as atividades transicionais

-Prevenir ou reduzir deformidades

-Aliviar moléstias e irritabilidade e melhorar a autonomia

-Melhorar padrões de deambulação, sedestação controlando a evolução.

-Melhorar a consciência corporal

-Incrementar as  respostas de proteção.

Uma vez discutidos e analisados os objetivos propostos, começou como hipoterapia ativa e realizou back riding já que não mantinha equilíbrio sobre o cavalo. Começou a realizar exercícios fisioterápicos antes de montar, com o propósito de dar maior mobilidade as articulações, diminuir a dor muscular, lutar contra a escoliose e  relaxar o tônus muscular. Os exercícios terapêuticos no colchão e sobre o cavalo eram quase impossíveis e as flexões e extensões de membros superiores e inferiores eram angustiosas e dolorosas para a adolescente.

 

Trabalhou a integração sensorial através de diferentes texturas, a estimulação auditiva pela música, no colchão e no cavalo para aumentar a resposta proprioceptiva.. 7 meses depois de trabalho intenso, houve resultados surpreendentes. Tais como:

 

-Flexão e extensão de tronco, braços e pernas.

-Posição supina de forma transversal no lombo do cavalo.Ainda não tem equilíbrio em cima do cavalo.

-Parou a estereotipia das mãos durante os exercícios e utiliza as mãos para segurar-se ao cavalo e o passo de trote.

-Reduziu o grau de escoliose.

-Levanta o pé para cruzar um obstáculo.

-Reduziu a marcha atáxica aproximando-se do padrão correto de locomoção.

-Aumentou a mobilidade das articulações.

-Incrementou a sociabilização, perdeu o medo das pessoas estranhas, abraça, sorri, busca a visão quando alguém fala.

-Regulou a resposta a entrada sensorial.

-Melhor compreensão de ordens.

-Eliminou a auto-agressividade.

-É capaz de caminhar sozinha sem ajuda de outras pessoas.

-Aumentou a intenção comunicativa

-Levanta-se só do chão utilizando as mãos como apoio.

 

Conclusões:

A combinação da fisioterapia, musicoterapia e pintura com a equinoterapia, ajuda a que todos os estímulos sejam transferidos de forma acelerada para as zonas diferentes do cérebro, agilizando o processo sináptico, favorecendo o desenvolvimento neuropsicomotor, a adaptação afetiva do indivíduo ao meio, maior grau de comunicatividade, levando a resultados muito favoráveis.

Fisioterapia na Sindrome de Marfan

Definição:

A Síndrome de Marfan é uma doença do tecido conjuntivo descrita por um pediatra francês, Antoine Bernard-Jean Marfan, em 1896. Com este primeiro relato e outros subseqüentes, ficou estabelecido que se tratava de uma doença genética com transmissão autossômica dominante, com expressividade variável intra e inter familial, sem predileção por raça ou sexo, que mostra uma prevalência de 1/10.000 indivíduos. Aproximadamente 30% dos casos são esporádicos e o restante familial.

Várias pessoas da família são afetadas. Denomina-se autossômica dominante porque apenas uma mutação em um dos alelos é necessária para ocorrerem as manifestações clínicas. Todos nós temos 46 cromossomos (o conjunto de material genético), ou seja, 23 pares de cromossomos, um herdado da mãe e o outro do pai. Esses pares de cromossomos são iguais e os genes ocupam sempre o mesmo lugar em ambos. Cada gene que ocupa o mesmo lugar é chamado de alelo.

Uma mutação em apenas um dos alelos é necessária para observarmos as características clínicas em uma doença autossômica dominante. Esta mutação pode ter sido herdada, o pai ou a mãe deve ter manifestações clínicas também, ou ter acontecido pela primeira vez, à qual chamamos de mutação nova. Uma vez portador da mutação e das características clínicas a chance de transmiti-la para os filhos é de 50%.

 

Manifestações clínicas:

A Síndrome de Marfan tem um quadro clínico muito variado observado em uma mesma família e em famílias diferentes. A este fato chamamos de expressividade variável e ele é importante porque nem sempre um indivíduo afetado tem todas as características clínicas. Por isso é necessário examinar cuidadosamente os pais e os familiares próximos. Da mesma forma que um indivíduo discretamente afetado pode vir a ter um filho muito acometido, ou vice-versa.

As principais manifestações clínicas da doença concentram-se em três sistemas principais: o esquelético, caracterizado por estatura elevada, escoliose, braços e mãos alongadas e deformidade torácica; o cardíaco, caracterizado por prolapso de valva mitral e dilatação da aorta; e o ocular, caracterizado por miopia e luxação do cristalino. A essa possibilidade de atingir órgãos tão diferentes denomina-se pleiotropia.

Foram listados os sinais clínicos considerados maiores (luxação do cristalino, dilatação da aorta, dissecção da aorta e ectasia dural) e assim, os requisitos para o diagnóstico são: nos casos esporádicos (ou parente de primeiro grau não afetado) deverá ocorrer o envolvimento do esqueleto e de dois outros sistemas, sendo pelo menos uma manifestação maior; nos casos familiais (ou pelo menos um parente de primeiro grau afetado) deverá ocorrer o envolvimento de dois sistemas, sendo pelo menos uma manifestação maior. Uma revisão dos critérios diagnósticos mais recente acrescentou dados do estudo do gene, quando este for um dado conhecido, e a presença de quatro manifestações esqueléticas como um sinal maior.

 

Fisiopatologia:

Sabendo que um determinado gene seria o responsável por estas manifestações clínicas e que um gene sempre comanda a fabricação de uma proteína, os pesquisadores se concentraram em descobrir que proteína seria comum aos ossos, olhos e coração, e no final dos anos 80 descobriram a existência de uma proteína chamada fibrilina, que faz parte do tecido de sustentação dos órgãos. Ela está presente em grande quantidade nos ligamentos que unem os ossos nas articulações e seguram as lentes dos olhos, chamadas de cristalino, assim como na camada interna das artérias, principalmente da maior artéria do corpo humano, chamada de aorta.

Quando a fibrilina está deficiente estes ligamentos e as artérias tornam-se flácidos. A flacidez nos ligamentos articulares leva a hipermobilidade articular e a uma perda na contenção do crescimento dos ossos e por isso eles crescem demais e deformam-se. Por sua vez, o ligamento de sustentação do cristalino frágil leva à mobilidade da lente (subluxação) podendo até se romper (luxação). No coração, o sangue que sai com muita força a cada batimento cardíaco é ejetado diretamente na aorta e esta vai se dilatando e pode até chegar a romper-se.

 

Quadro genético:

Através de técnicas de pesquisa do DNA em famílias chegou-se à conclusão de que o gene que fabricava a fibrilina estava localizado no cromossomo 15 e posteriormente, em 1993, uma pesquisadora brasileira, Dra. Lygia Pereira, conseguiu obter toda a seqüência do gene e dar o nome de fibrilina-1

Este gene é muito longo, constituído por 65 seqüências codificadoras chamadas éxons. Desde esta data foram identificadas mais de 200 mutações diferentes, entre elas as relatadas por um estudo brasileiro concluído em 1997 pela Dra. Ana Beatriz A . Perez. Apesar dos esforços pouco se descobriu sobre a correlação entre as diferentes mutações e as manifestações clínicas. Até o momento sabe-se que mutações no meio do gene causam uma forma da doença muito grave, chamada até de letal porque a criança já nasce com dilatação da aorta e demais características. Na região final do gene as mutações parecem correlacionar-se com quadros clínicos leves. Além disso, as mutações são quase sempre exclusivas de uma determinada família.

O estudo do gene permitiu também aos pesquisadores a constatação de que quadros parecidos e muitas vezes caracterizados por uma única manifestação clínica apresentavam mutação no gene fibrilina-1. Nesse momento nasceu o conceito das "fibrilinopatias", ou seja, doenças causadas por mutações no gene fibrilina-1, que podem ter uma combinação diferente dos sintomas da Síndrome de Marfan clássica assim como estar associadas com manifestações menos comuns ou não relacionadas a princípio.

 

Diagnóstico:

A análise molecular do gene ainda é difícil, uma vez que seqüenciar ou ler o gene todo é muito trabalhoso, demorado e caro. Ao mesmo tempo, os métodos de identificação de suspeita de mutação mais comuns identificam aproximadamente 20% das mutações e métodos como o dHPLC são muito caros e de difícil acesso.

Assim sendo, mesmo no exterior, a identificação das mutações ainda é feita experimentalmente e os critérios diagnósticos clínicos continuam sendo a base do diagnóstico

 

Aspectos psicológicos

Deformidades anatômicas e fisiológicas, características em portadores da síndrome de Marfan, são fatores que provocam distúrbio de ajustamento psicológico com limitações no desenvolvimento emocional e social. A aparência física pouco comum nesses indivíduos frequentemente leva a alterações no esquema corporal, na auto-estima e , consequentemente, no desenvolvimento global da personalidade. As deformidades do corpo são responsáveis por colocar o indivíduo em uma posição de destaque negativo junto ao grupo, causando prejuízos muitas vezes determinantes na vida da pessoa tais como, inibição, sentimentos de menosvalia e tendência ao isolamento. Por ser uma doença crônica e peculiar, atingindo precocemente o indivíduo, a síndrome pode provocar danos na área afetivo-relacional em cada etapa do desenvolvimento.

Na infância, como na maioria das cardiopatias congênitas, a síndrome de Marfan pode estar freqüentemente associada a distúrbios de aprendizagem decorrentes de deficit cognitivos provocados pela doença ou ainda problemas emocionais diversos. As limitações físicas podem impedir a criança de ter acesso a muitas formas de brincadeiras e exercícios, reduzindo assim sua capacidade de expressão e estruturação da personalidade adquiridas com estas atividades.

Na puberdade e adolescência, período crítico do desenvolvimento, o portador da síndrome defronta-se com a superposição de conflitos relacionados às transformações corporais e psíquicas.

No adulto as dificuldades não são menos traumáticas devido a muitos fatores ansiogênicos que acompanham o quadro, tais como sentimento de insegurança quanto a ser aceito pelo parceiro do sexo oposto, necessidade de planejamento familiar. No caso da mulher, pode haver interdição relativa para a gestação , o que implicaria a perda da integridade e o luto pela renúncia à maternidade, ou então a experiência da gravidez de alto risco, também ansiogênica. A reduzida expectativa de vida em ambos os sexos é outro fator causador de danos emocionais como os variados graus de estados depressivos, limitando a realização de projetos pessoais e profissionais.

Estudos apontaram significativo ônus nas atividades físicas diárias, na educação formal e na oportunidade de emprego. A auto-imagem ,afetada pela aparência, tem repercussões negativas no comportamento social ,caracterizado por introversão.

As principais manifestações oculares em portadores da síndrome de Marfan são:subluxação do cristalino, miopia e descolamento de retina.

Subluxação do cristalino é o deslocamento do cristalino da sua posição normal no eixo visual. O descolamento de retina representa a complicação ocular mais grave desta síndrome.

Algumas manifestações oculares são mais frequentes em pacientes com síndrome de Marfan quando comparados com a população geral, dentre elas: estrabismo, catarata e glaucoma.

 

Fisioterapia

O tratamento fisioterapêutico é parte integrante da equipe interdisciplinar que visa o auxílio terapêutico nos pacientes portadores da Síndrome de Marfan. A atuação deve ser considerada de fundamental importância uma vez que possui  atuação em diversos sistemas tais como locomotor, cardiovascular e respiratório.

A atuação quanto ao aparelho locomotor baseia-se em uma terapêutica que tem como objetivo minimizar as deformidades esperadas nestes pacientes tais como cifose, escoliose, alteração da caixa torácica e aracnodactilia. A hipermobilidade das articulações faz com que estes indivíduos sejam mais propensos a desenvolver lesões  e  luxações, situação esta que também deve ser associada ao processo preventivo e curativo com a terapêutica fisioterápica.

No sistema cardiovascular a fisioterapêutica exerce papel no que diz respeito à melhora do condicionamento cardiorrespiratório e musculoesquelético, através da realização de exercícios planejados e sob monitorização continua, uma vez que estes pacientes podem ser classificados como indivíduos de risco. Normalmente se dá preferência a atividades do tipo aeróbias e de baixa intensidade, impedindo-se a associação com exercícios que ofereçam impacto ou componente isométrico.

Os pacientes com Síndrome de Marfan apresentam deformidades e limitação crônica da caixa torácica, tendo maior probabilidade ao desenvolvimento de doenças respiratórias restritivas. As principais complicações pulmonares são; bronquiectasia, bolhas enfizematosas, pneumotórax espontâneo e fibrose pulmonar. O acompanhamento fisioterapêutico  nesses pacientes é de suma importância visando a manutenção dos volumes e capacidades pulmonar.

A fisioterapia atua de forma imprescindível no pré e pós-operatório dos pacientes eletivos de cirurgias ortopédicas e cardiovasculares, diminuíndo o número de complicações no pós–operatório e conseqüentemente o tempo de internação.

 


Lesões em pelve e quadril no esporte


As lesões no quadril, pelve e região inguinal são freqüentes no esporte, e acredita-se que a incidência dessas lesões seja superior à que é relatada na literatura. O diagnóstico é difícil, pois os sinais e sintomas clínicos são frequentemente incaracterísticos, além deste requerer um grande conhecimento da anatomia local e de suas patologias.

 

As lesões mais comuns nessa região são as contusões, lesões musculotendinosas (principalmente de adutores e ileopsoas), lesões na articulação sacro-ilíaca, bursites e osteíte púbica (conhecida também como pubalgia). Outras lesões que podem ocorrer no atleta, porém menos comuns,  são lesão do lábio do acetábulo (quadril) e fraturas por estresse ou por avulsão.

 

As disfunções na articulação sacro-ílíaca merecem destaque, por serem comuns nos ciclistas e corredores, e muitas vezes são a causa das dores lombares que acometem esses atletas. Essas disfunções ocorrem devido à alterações biomecânicas, traumas repetitivos indiretos ou trauma direto (como cair em pé sobre uma perna só).

 

Esta articulação é composta pelo sacro e por um dos ossos da pelve, o ilíaco. Quando o corpo está em movimento, ela também está em constante movimento, porém este é bem pequeno, já que esta é uma articulação bem estável. Além da capacidade de absorver o impacto, ela funciona como um suporte estrutural básico durante a postura de pé ou sentada. 

 

A dor decorrente da disfunção desta articulação pode ser bem localizada (bem acima dos glúteos, afastada da coluna cerca de 2 a 3 dedos) ou na região lombar. Tipicamente irradia para a região posterior da coxa (podendo ser confundida com a dor ciática), para a região do quadril e da virilha. É comumente confundida também com hérnia\protusão discal, distensão muscular, tendinites e bursites.

 

Muitas vezes, a lesão da sacro-ilíaca pode estar relacionada com algumas destas patologias citadas acima, pois a pelve, o quadril e a coluna lombar são interligados e não podem ser vistas como estruturas separadas, e sim como partes de um todo.

 

Seguem abaixo algumas situações em que o atleta pode sentir dor:

 

  • Durante a atividade, principalmente durante o impacto do pé no chão;
  • Dificuldade de cruzar as pernas – para colocar o tênis, por exemplo;
  • Sensação de ter uma perna mais curta do que a outra;
  • Dor e\ou estalido ao entrar e sair do carro, sentar e levantar da cadeira

 

O diagnóstico, como já foi dito, é difícil de ser feito. Muitas vezes o atleta já passou por vários médicos, obteve vários diagnósticos diferentes, sem de fato descobrir a origem de sua dor, que pode chegar a ser até incapacitante.

 

Além do Raio-X, Ressonância Magnética e Tomografia Computadorizada, pode ser necessário a injeção de anestésico e antiinflamatório na articulação. Apesar de invasivo, este é o método que apresenta diagnóstico mais preciso. Se após a injeção, os sintomas do atleta diminuírem significativamente ou até desaparecerem, está comprovado que a dor realmente se origina de uma disfunção da sacro-ílíaca.

 

O tratamento conservador (não-cirúrgico) apresenta ótimos resultados, e consiste principalmente em:

 

  • Treinamento da estabilidade da pelve, do quadril e do tronco;
  • Ênfase no fortalecimento da musculatura interna do abdome (transverso), períneo e glúteo;
  • Correção dos desequilíbrios musculares existentes;
  • Técnicas de mobilização e manipulação articular (que devem ser realizadas por osteopatas ou terapeutas manuais);
  • Correção (quando possível) das alterações biomecânicas do atleta e da técnica esportiva 

Por Silvia Guedes – Fisioterapeuta formada pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais / Especialista em Fisioterapia Esportiva pela PUC-MG e pós-graduanda em Osteopatia pela Escola Brasileira de Osteopatia



Fisioterapia preventiva X Biomecanica

NTRODUÇÃO

 

As interações entre o trabalho e o homem são bases de pesquisas da biomecânica ocupacional na qual se analisam, essencialmente, a aplicação de forças e tensões a que os grupos musculares são mantidos durante uma determinada postura no desempenho das atividades laborais. Esse comportamento postural adotado pelos trabalhadores, resumidamente, é influenciado pelas características da tarefa e pelo meio ambiente de trabalho, estes fatores

 podem desenvolver sobrecargas e aumento do gasto energético com conseqüente produção de tensões nos músculos, ligamentos e articulações resultando em desconfortos e dores, que são precedentes de doenças ocupacionais.

A abordagem da fisioterapia cresce a cada dia principalmente pela descoberta da importância do investimento em ações preventivas no combate aos distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho. É interessante inicia essas ações com a desmistificação do processo patológico e o estímulo da consciência postural do funcionário perante os utensílios de trabalho, inclui-se também campanhas educacionais, implantação dos princípios ergonômicos no ambiente de trabalho e desenvolvimento de técnicas de alongamento e relaxamento através de exercícios laborais.

O objetivo desta pesquisa engaja-se tanto nos constituintes dos aspectos biomecânicos ocupacionais quanto nas ações preventivas no âmbito da fisioterapia do trabalho. Trata-se de um tema com estimado interesse social, pretendendo elucidar as características do processo saúde/doença das atividades laborais visando uma melhoria das condições profissionais e conseqüentemente poder contribuir para uma boa qualidade de vida no trabalho.

 

METODOLOGIA

 

Esta pesquisa foi realizada a partir do levantamento bibliográfico sobre o tema, foram consultados diversos artigos em português, obtidos durante o período de 1990 a 2005. Parte da consulta foi conseguida em dados científicos disponibilizados nas páginas eletrônicas da Internet, como:

Bireme/OPAS/WHOLIS/OMS – Sistema Integrado de Informações do Centro Latino-Americano de Informações;

www.eps.ufsc.br – Página de base de dados da Engenharia de Produção e Sistemas da Universidade Federal de Santa Catarina;

www.usp.br – Página de bases de dados de Pós-graduação da Universidade de São Paulo.

www.scielo.br/scielo.php – Página de dados em página eletrônica.

O restante foi pesquisado em livros, periódicos e publicações de tese de doutorado e dissertações de mestrado.

As palavras chaves utilizadas na pesquisa foram: biomecânica ocupacional, fisioterapia preventiva, doenças ocupacionais, LER/DORT e ergonomia.

 

DESENVOLVIMENTO

ERGONOMIA

 

Os avanços tecnológicos e a necessidade de competir no mercado acabaram por determinar transformações constantes no ambiente de trabalho e nos processos de produção1. Tais avanços evidenciam um novo paradigma de organização das relações econômicas, sociais e políticas e se apóiam na conjugação de abertura de mercados e no desenvolvimento acelerado da tecnologia microeletrônica. Nesse sentido, a evolução tecnológica presente em todas as esferas da produção provocam alterações na dinâmica laboral desenvolvidas nas empresas e indústrias, interferindo sistematicamente na organização do trabalho e na ampliação dos fatores que podem provocar agravos à saúde dos trabalhadores como aqueles relacionados às DORTs – Distúrbios Osteomusculoligamentares Relacionados ao Trabalho2.

Na realidade, o homem no seu processo evolutivo sempre buscou aprimorar suas ferramentas de trabalho com o intuito de transformar tarefas árduas em atividades práticas e menos agressivas à sua constituição fisiológica3. Lima (2003) confirma que a influência dos processos de globalização, a competitividade desenfreada do mercado financeiro, a quebra progressiva dos vínculos trabalhistas, a busca de resultados considerados inatingíveis, as novas tecnologias exigindo dos profissionais uma constante reciclagem e o excesso de oferta de trabalho, para as empresas, têm provocado mudanças estruturais na sua organização do trabalho, influenciando diretamente a qualidade de vida dos trabalhadores4. Com esta perspectiva, coloca-se em análise a adaptação das ferramentas e do ambiente de trabalho ao homem, constituindo o enfoque de estudo da ergonomia.

Em uma abordagem concisa conceitua-se a ergonomia como uma ciência que estuda o relacionamento entre o homem e seu ambiente de trabalho, reunindo os conhecimentos da antropometria, fisiologia e psicologia, e das ciências vizinhas aplicadas ao trabalho humano, na perspectiva de uma melhor adaptação dos métodos, meios e ambientes de trabalho ao homem5. A ergonomia também é relatada como sendo a ciência da configuração de trabalho adaptado ao homem6. A partir dessa perspectiva, diversos autores evidenciaram a importância de se considerar as questões psicofisiológicas e biomecânicas ocupacionais, bem como seu modo organizacional.

A ressalva da ergonomia se dá pelo comprometimento ético com o ser humano visando ao funcionamento harmônico e seguro dos sistemas homem-máquina7. Essa contribuição é incomensurável e as conseqüências sobre a abordagem do fator humano ainda não foram assumidas8. O que torna vivo o descaso por parte dos empresários relativo à saúde e a qualidade de vida do trabalhador no ambiente laboral.

As contribuições da ergonomia no âmbito das melhorias nas condições de trabalho se dão pela busca da compreensão as atividades dos indivíduos em diferentes circunstâncias de trabalho com vista à sua transformação9. A área de trabalho, os equipamentos e as ferramentas devem ser bem projetadas para que sejam evitadas solicitações excessivas e desnecessárias da atividade muscular, adaptando-as às características psico-fisiológicas-antropométricas e biomecânicas humanas10. Deste modo, enfoca-se a situação de trabalho inserida em um contexto sociotécnico, a fim de configurar as lógicas de funcionamento e suas repercussões, tanto para a qualidade de vida no trabalho, quanto para o desempenho da produção.

A imposição dos ritmos de trabalho intensos e jornadas prolongadas, atreladas a posturas incorretas e ambientes ergonomicamente inadequados ao trabalhador são interpretadas como causa do comprometimento da sua saúde e da sua destreza nas tarefas habituais, predispondo-o ao desenvolvimento de doenças ocupacionais11. A etiologia das LER/DORTs retrata várias casuísticas interligadas, como fatores psicológicos, biológicos e sociológicos envolvidos na gênese desses distúrbios12. No início eram decorrentes preponderantemente das condições de trabalho, mas com o aumento explosivo da incidência entre várias categorias profissionais, surgiram novas correntes explicativas que se deparam em busca de uma compreensão quanto o aspecto etiológico, diversos pesquisadores convergem para uma etiologia multifatorial, com clinicas variadas, o que torna mais difícil a sua identificação.

Em meio a esta casuística surge no Brasil, a Norma Regulamentadora - NR17 de 23/11/90, da Portaria n. 3.214/78 da Secretaria de Segurança e Saúde do Trabalhador, do Ministério do Trabalho e Emprego, que visa estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar o máximo de conforto, segurança e eficiência das atividades desempenhadas13.

 

DOENÇAS OCUPACIONAIS

 

O primeiro termo a surgir no Brasil, na tentativa de definir as afecções musculoesqueléticas decorrentes do trabalho, foi LER (Lesões por Esforços Repetitivos), baseado na tradução da sigla australiana RSI (Repetitive Strain Injury). Através de estudos e verificações constatou-se que esse termo estava sendo insuficiente para designar as formas clínicas que começaram a aparecer por conseqüência de atividades ocupacionais, por traduzir um mecanismo de lesão único e abrangente. Adotou-se então, a partir da década de 90, o termo DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) que permitiu ampliar os mecanismos de lesões, não só restritos aos movimentos repetitivos14.

Desta forma, diversos pesquisadores investigam as doenças ocupacionais através de dois ângulos observacionais: o primeiro de acordo com a escola anglo-saxônica que ampara a causa da biomecânica como responsável pelo surgimento dos sintomas relacionados aos mecanismos, tentando esclarecer a sua origem através de movimentos com emprego de força, repetitividade, compressão mecânica e posturas inadequadas, ambos agravados pela diminuição das pausas e pela velocidade elevada das atividades laborais4.

A outra Escola preconiza os fatores psicossociais como causas dos sintomas osteomusculares ligado aos membros superiores. Auxiliada pelas escolas francesas e belgas, para as quais os elementos relacionados ao sistema organizacional e ao método de trabalho se devem pela progressiva marginalização dos trabalhadores no processo industrial, pela insatisfação profissional e pela busca desenfreada do lucro4. Esta duas escolas buscam, através de vertentes diferentes, justificar o surgimento das LER/DORTs e se complementam na sua essência ao cogitarmos que os métodos de trabalho tratam-se da interação entre o meio e o homem.

As bases da biomecânica ocupacional são constituídas através de um estudo complexo na qual a interação entre o trabalho e o homem são observadas nas atividades músculo-esqueléticas envolvidas neste processo, bem como suas conseqüências. Analisam-se predominantemente posturas no trabalho e a aplicação de forças determinada pela natureza da atividade laboral desempenhada pelo indivíduo. Para se realizar qualquer postura ou um movimento é preciso a organização dos diferentes segmentos corporais no espaço, sendo essencial à sincronia entre grupos musculares, ligamentos e articulações. Resumidamente, a postura é influenciada pelas características e exigências da tarefa, pelas condicionantes internas como as formas fisiológicas e biomecânicas de manutenção do equilíbrio e pelas características do meio ambiente de trabalho15.

 

 

BIOMECÂNICA OCUPACIONAL

 

O comportamento postural adotado pelos trabalhadores é motivado pela fuga do desconforto, contudo esta atitude tende a aumentara a solicitação e o gasto energético de grupos musculares desnecessários causando o desenvolvimento de sintomas com dor, formigamento, câimbras entre outros. A adaptação muscular no padrão postural refere-se à capacidade dos músculos se adaptarem às funções que vivenciam. Nenhuma postura de trabalho é neutra. Nenhuma "má postura" é adotada "livremente" pelo sujeito, mas é resultado de um compromisso entre os pontos citados4 . Uma postura inadequada causa tensões mecânicas nos músculos, ligamentos e articulações, resultando em dores no pescoço, costas ombros, punhos e outras partes do sistema músculo-esquelético5 .

Postura é um termo definido como uma posição ou atitude do corpo a disposição relativa das partes do corpo para uma atividade específica, ou uma maneira característica de sustentar o próprio corpo. O corpo pode assumir muitas posturas buscando melhor conforto quando ocorre um desconforto postural por contração muscular contínua, tensão ou compressão ligamentar, ou oclusão circulatória, normalmente procura-se uma nova atitude postural. Quando não se alteram tais posições podem ocorrer lesões teciduais, limitação de movimentos, deformidades ou encurtamentos musculares restringindo as atividades de vida diária16.

A postura pode ser definida também pelo arranjo característico que cada indivíduo encontra para sustentar o seu corpo e utilizá-lo na vida diária, envolvendo uma quantidade mínima de esforço e sobrecarga, conduzindo à eficiência máxima do corpo17. A grande inter-relação entre as musculaturas estáticas e dinâmicas são evidenciadas entre vários autores quando se referem a qualquer atividade corporal onde a postura dinâmica está associada a execução de tarefas numa soma de vários movimentos articulares que permitem realizar as atividades de trabalho, enquanto que a postura estática associa-se à manutenção do tônus dando base necessária à estabilização das estruturas centrais do corpo18.

Para a Academia Americana de Ortopedia "postura é um arranjo relativo das partes do corpo e, como critério de boa postura, o equilíbrio entre suas estruturas de suporte (músculos e ossos) as protegem contra uma agressão por trauma direto ou deformidade progressiva por alterações estruturais. Já a má postura é aquela onde há falha no relacionamento das várias partes do corpo induzindo ao aumento de agressão às estruturas de suporte produzindo um desequilíbrio nas bases de suporte corporal". Postura inadequada exigirá maiores forças internas para a execução de uma tarefa e consequentemente maior gasto energético, enquanto que a postura correta promove boas condições biomecânicas o que leva um maior rendimento com relação à energia localizada19 .

Existem vários motivos pelos quais uma posição se torna incômoda após algum tempo: 1) pela compressão de partes do corpo (nádegas, coxas e fossa poplítea) contra o assento; 2) pela contração prolongada dos músculos posteriores do tronco que mantêm esta posição (pescoço, dorso e região lombar); 3) pela diminuição da circulação sanguínea causada tanto pela compressão de algumas partes do corpo quanto pela contração permanente dos músculos posturais20 .

A adoção de posturas inadequadas na realização de determinadas funções, associadas a outros fatores de risco existentes no posto de trabalho, como sobrecarga imposta à coluna vertebral, vibrações e manutenção de uma postura por tempo prolongado constituem as maiores causas de afastamento do trabalho e de sofrimento humano21. Assim sendo, o quadro álgico na coluna é uma das desordens ocupacionais mais discutidas entre os pesquisadores e identificada por estudos epidemiológicos e análises biomecânicas.

IMAGEM 1 e 2

As posturas ocupacionais podem ser desenvolvidas na posição ortostática, sentada ou ainda na posição horizontal. O trabalho em pé exige dos membros inferiores uma atividade muscular estática para manter essa posição na qual é altamente fatigante, pois exige grande trabalho estático das musculaturas envolvidas. Além do mais, ocorre um aumento da pressão hidrostática do sangue nas veias das pernas com acúmulo de líquidos tissulares nas extremidades inferiores promovendo a diminuição da circulação sanguínea, a dilatação das veias das pernas, edema tecidual do tornozelo e fadiga muscular dos músculos da panturrilha22. Descobrimos convergência nas literaturas pesquisadas quanto ao tempo prolongado durante a realização de tarefas em pé que promovem fadiga muscular nas regiões das costas e pernas piorando com a inclinação do tronco e da cabeça causando dores nestas regiões.

A posição ortostática com apoio simétrico dos membros inferiores descreve uma curvatura anteriorizada da coluna lombar – o que se designa de lordose lombar fisiológica. Já num apoio assimétrico sobre um membro inferior, a lombar apresenta uma concavidade para o lado do apoio devido à báscula da pelve para isso a coluna dorsal adota uma postura produzindo uma concavidade para o lado do membro sem carga, em seguida a cervical adota uma curvatura para o lado da curvatura lombar, isto é, de concavidade para o lado de apoio23. Aparentemente observa-se um descompensamento de todas as estruturas anatômicas responsáveis pelo equilíbrio estático da coluna resultando em sobrecarrega.

Sob o ponto de vista biomecânico, a postura sentada impõe carga significativa sobre os discos intervertebrais, cerca de 50%, principalmente da região lombar, e se mantida estaticamente por período prolongado pode produzir fadiga muscular e conseqüentemente dor21. Devemos lembrar que os discos intervertebrais são estruturas praticamente desprovidas de nutrição sanguínea e que o aumento em sua pressão interna reduz a nutrição do mesmo promovendo uma degeneração, seu comprometimento estrutural é menor quando comparado a postura em pé. As vantagens da postura sentada são o alívio dos membros inferiores, baixo consumo energético, menor sobrecarga ao corpo e alívio à circulação sanguínea. Porém, alguns experimentos demonstram que a mecânica da coluna vertebral, na postura sentada, é perturbada produzindo desgastes e conseqüentes lesões nos discos intervertebrais pela pressão a que estas estruturas sofrem por tempo prolongado6.

Com relação à posição sentada observam-se vantagens por ser menos cansativa para os membros inferiores devido à menor carga nas articulações do quadril, joelho e tornozelos desde que esta esteja posicionada de maneira adequada possuindo apoio para a região da coluna e dos pés. Mesmo nesta posição é preciso um desempenho continuo dos músculos das costas para evitar que esta desabe6, 20.

A mudança de postura durante a atividade de trabalho é de grande importância para a saúde do sistema músculo-esquelético possibilitando a redução de cargas estáticas e variação da utilização de estruturas articulares e musculares. A postura semi-sentada (ou semi-apoiada) tem sido proposta para algumas situações de trabalho, porém não como única alternativa para o trabalhador durante sua jornada de trabalho, pois esta postura ainda não apresenta conclusões definitivas podendo ser utilizada apenas por pequenos períodos11.

As abordagens das LER/DORTs que restringem a sua etiologia a um único tipo de fator causal não estão encontrando respostas suficientes em relação ao seu diagnóstico, tratamento e à cura. Pode-se constatar que elas não se enquadram em um paradigma médico de interpretação do processo saúde-doença, baseado na mera casualidade unidimensional, e sim multifatorial abrangendo aspectos biomecânicos, cognitivos, afetivos entre outros, da atividade desenvolvida pelos pacientes, dificultando então a atuação dos profissionais da saúde12.

 

FISIOTERAPIA PREVENTIVA

 

Para as empresas, existem inúmeras vantagens de investir em programas de saúde ocupacional. Em primazia destacam-se as melhorias na qualidade de vida do trabalhador propiciando uma redução dos gastos com assistência médica por doenças ocupacionais e conseqüentes afastamentos, diminuição do absenteísmo e da rotatividade do quadro de empregados na empresa, e conseguinte aumento na eficiência do trabalho. Para os empregados, proporcionaria a redução da fadiga muscular e do desconforto físico, com conseqüente redução do estresse psicológico, a diminuição do gasto energético na execução das tarefas e do acometimento de DORTs 24.

Martins & Duarte (2000), apud Lima (2003) ressaltam a necessidade da análise ergonômica no trabalho, pois sem a qual as sessões de alongamento seriam apenas um mero paliativo momentâneo, hajam visto que alguns minutos dessa prática não atuariam com eficácia sobre a má postura ocasionada por mobiliários antiergonômicos ou mesmo tarefas exaustivas desempenhadas por período prolongado4.

 

CONCLUSÃO

Podemos concluir que as relações entre trabalho e a saúde dos trabalhadores nem sempre é benéfica, a maioria dos empregados são expostos a locais de trabalho antiergonômicos, jornadas prolongadas, ritmos excessivos, entre outros fatores que acabam por colocar em risco o desempenho de suas atividades laborais e domésticas. A qualidade de vida no trabalho nestes casos é comprometida.

A ergonomia, por ser uma ciência multidisciplinar, estuda vários aspectos relacionados com a organização do trabalho, componentes do posto, condições ambientais, características psicossociais e características físicas do trabalhador. A análise do atrelamento destes requisitos transfere o ponto de vista para a biomecânica ocupacional desenvolvida pelo funcionário como fator predisponente ao desenvolvimento das doenças ocupacionais, visto que a má postura no local de trabalho proporciona o surgimento de quadro doloso.

Em síntese, a biomecânica ocupacional é a aplicação dos princípios da mecânica da física ao corpo humano, noções de força, peso e tensões a que os grupos musculares são mantidos durante uma determinada postura ou um movimento o que podem desenvolver sobrecargas e aumento do gasto energético, com conseqüente produção de tensões nos músculos, ligamentos e articulações resultando em dores.

A busca por programas preventivos atua sobre o enfoque dos fatores tidos como desencadeadores da sintomatologia das DORTs. No âmbito da fisioterapia, a desmistificação do processo patológico é a base inicial do programa preventivo, inclui-se campanhas educacionais, implantação dos princípios ergonômicos no ambiente de trabalho e desenvolvimento de técnicas de alongamento e relaxamento através da cinesioterapia laboral.

A previa análise das atividades desempenhadas pelos funcionários durante a jornada de trabalho direcionaria este programa na qual será embasado num conjunto de atividades ligadas a prevenção de doenças ocupacionais, onde pretende-se desenvolver uma consciência individual e coletiva de cada funcionário participante, a fim de se evitar a instauração do quadro sintomatológico e em alguns episódios, como nos casos iniciais da patologia, o tratamento imediato garante a cura total.

É constatado que a reincidência dos sintomas se devem ao não retorno gradativo da função desempenhado pelo funcionário, não basta o afastamento durante o tratamento medicamentoso e fisioterapêutico, mas que este retorno a suas atividades laborais sejam orientadas por um fisioterapeuta profissional capacitado para que reabilite funcionalmente o membro afetado do paciente. Este acompanhamento deve ser incluso no programa preventivo a fim de se evitar o regresso do quadro patológico.

Na esfera laboral, o fisioterapeuta pode se unir a uma equipe multidisciplinar dentro da empresa para garantir o retorno gradativo do funcionário às atividades laborais, pode desenvolver um ambiente de trabalho mais ergonômico adequando-o ao seu usuário, pode realizar o tratamento fisioterapêutico dentro da empresa afim de evitar o deslocamento do funcionário para um clinica especializada, economizando assim o tempo.

Pesquisar este blog

Carregando...
 

Shopping