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domingo, 7 de outubro de 2007

Fisioterapia na Oncopediatria






Fisioterapia, presente em todas as etapas
O câncer infantil e suas respectivas terapêuticas normalmente debilitam as crianças e adolescentes e têm inúmeras seqüelas sobre sua saúde. A fisioterapia exerce um papel fundamental no acompanhamento desses pacientes, e atua tanto na prevenção quanto na recuperação de diversas alterações provocadas pela doença

Ao atender um paciente com câncer infantil, a equipe de fisioterapia “se depara com inúmeros quadros”, conforme afirma a fisioterapeuta Yeda Gabilan, professora da Unicid e supervisora do estágio de graduação em fisioterapia no setor de oncologia do Hospital Infantil Darcy Vargas, em São Paulo. Podem ocorrer “alterações motoras, respiratórias e posturais, seqüelas musculares, esqueléticas ou neurológicas, paralisia facial, dores iintensas, entre muitas outras”, diz ela. A atuação do fisioterapeuta não se restringe a uma etapa específica do tratamento: tem início desde o diagnóstico ou o momento da internação e perpassa todos os diferentes estágios, podendo inclusive continuar após o final da terapêutica, em função dos efeitos tardios que venham a se manifestar.

Diversas frentes de atuação
Embora o trabalho da equipe de fisioterapia abarque todos os tipos de câncer e de tratamento, alguns têm conseqüências especialmente pronunciadas sobre os pequenos pacientes. Os tumores de SNC, por exemplo, não raro impõem diversas seqüelas neurológicas. Linfomas na região do mediastino e leucemias, (especialmente quando conduzem a um estado de grande imunossupressão), podem causar complicação ou insuficiência respiratória. Tumores ósseos podem requerer cirurgias ou amputações. As terapêuticas também influem sobre o estado geral do paciente. A quimioterapia não raro leva à imunussupressão. “Corticóides provocam alterações articulares, e alguns quimioterápicos lesam o sistema de equilíbrio corporal”, conta Yeda. A radioterapia também gera seqüelas diversas, como necroses.

No caso das complicações respiratórias, o trabalho é feito por meio de exercícios para estimular o sistema respiratório e retirar as secreções. “Quando o paciente está na UTI, utilizamos a técnica de ventilação não invasiva, e, através de uma máscara nasal adaptada ao respirador, fazemos exercícios de respiração e estimulação motora, ativamos o sistema respiratório do paciente e prevenimos escaras de pressão”, conta Celena Friedrich, uma das coordenadoras do departamento de fisioterapia do Hospital do Câncer, em São Paulo.

Em relação aos tumores de SNC, que não raro impõem diversas seqüelas neurológicas, a atuação do fisioterapeuta é imprescindível. Nos casos em que a criança está internada, ocorrem trabalhos de mobilização e fisioterapia motora no próprio leito, e a equipe previne ainda contraturas de posicionamento e deformidades decorrentes de cirurgia.

Nos casos de tumores ósseos, a fisioterapia também tem atuação destacada, especialmente nos casos de cirurgia ou amputação, de modo a permitir que a reabilitação do paciente ocorra o mais rapidamente possível. “Nos processos pré e pós-operatórios, trabalhamos a adaptação às próteses e endopróteses, auxiliamos o paciente a andar com muletas e reabilitamos sua marcha, até que seja possível caminhar sozinho”, conta Celena. “No pós-operatório, trabalhamos também a postura – para que não evolua de modo incorreto – e a mobilização da musculatura, enquanto não se pode mover o membro afetado” completa Yeda.

Antes de qualquer procedimento, é importante atentar para o estado geral do paciente. O primeiro passo, conforme conta Yeda, é verificar o hemograma da criança. “Temos de estar sempre atento aos exames. Quando a contagem de plaquetas é inferior a 50 mil, por exemplo, não se pode fazer manobras para retirar secreção”, acrescenta Celena. Se houver baixa de leucócitos, é também necessário cuidado redobrado com assepsia e esterilização do material. A vigilância se estende aos processos infecciosos, que nas crianças imunossuprimidas evoluem rapidamente.

O trabalho deve perceber o indivíduo como um todo, e auxiliar para que ele deixe o leito o mais rapidamente possível. “Temos de observar sempre como estão a postura e os movimentos; às vezes só o fato de levantar da cama e se expor à gravidade já faz bem”, diz Yeda.

Certas modalidades fisioterapêuticas podem ser especialmente benéficas, quando for possível aplicá-las. A fisioterapia aquática, por exemplo, traz resultados muito bons. Conforme conta Yeda, além de ser uma atividade lúdica, a fisioterapia aquática “não é estigmatizante: a criança muitas vezes fala que vai para a natação”. Além disso, na água, as crianças se movimentam com mais facilidade (principalmente as que sofrem de tumores de SNC) e conseguem fazer na piscina movimentos que, fora d’água, seriam impossíveis.

“Crianças são crianças, é preciso conquistá-las”
A aceitação dos pacientes ao trabalho dos fisioterapeutas no geral é muito boa, mas antes de iniciar qualquer intervenção é importante que se estabeleça um vínculo entre paciente e profissional. “Sem esse vínculo, não há trabalho possível”, afirma Yeda. “Alguns pacientes são muito manipulados, passam por procedimentos dolorosos e invasivos, e podem relutar em aceitar o trabalho do fisioterapeuta. Por isso, essa vinculação inicial é imprescindível”.

“As crianças são crianças, precisamos conquistá-las”, ressalta Celena. Para ela, os pequenos acima de tudo “querem brincar”, e por isso a fisioterapia deve ser transformada em uma atividade lúdica. “Se não entrarmos no mundo da criança, não temos acesso a ela”.

Portanto, a equipe de fisioterapia, devidamente vinculada ao paciente, pode estruturar seu trabalho de modo a tirá-lo do leito e restaurar suas condições normais o máximo possível.“É um trabalho que contribui decisivamente para a reintegração social da criança e do adolescente com câncer”, enfatiza Yeda.


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