Monografia: Fisioterapia Assistida por Animais (FAA) em Crianças e Adolescentes






Por Danielle Gonçalves

    A Terapia Facilitada por Animais (TFA) caracteriza-se pela utilização de animais em diversas modalidades terapêuticas, sendo possível a realização do tratamento dos aspectos físico, cognitivo, emocional e social. Esta modalidade terapêutica busca contribuir para o bem-estar e auto-estima, melhorando a qualidade de vida do paciente. Também é conhecida por diferentes nomenclaturas, como Terapia Assistida por Animais (TAA), Pet-terapia, Terapia Facilitada por Animais (TFA), Terapia Facilitada por Cães (TFC), Fisioterapia Assistida por Animais (FAA), Zooterapia, Cinoterapia entre outros.

     A Terapia Assistida por Animais (TAA) é definida como reabilitação com a ajuda de animais. Pode-se usar cão, gato, cavalo, golfinho entre outros animais e deve ser aplicada por uma equipe multidisciplinar especializada (médicos, psicólogos, pedagogos, instrutores, fisioterapeutas, treinadores de animais, veterinários, etc.). É importante ressaltar que a TAA não substitui nenhuma modalidade terapêutica e sim as complementa (fisioterapia, terapia ocupacional, psiquiatria, psicologia, entre outros).

     A Atividade Assistida por Animais (AAA) baseia-se em um trabalho de visitação, com o objetivo de promover bem estar através de atividades com animais, desfrutando de sua companhia, podendo obter-se benefícios físicos e psíquicos. Além dessas terapias outro programa que pode ser realizado é o programa de visitação, no qual os animais interagem com pessoas com deficiências acompanhados de seus donos.

     A Fisioterapia Assistida por Animais (FAA) é a terapia onde cão faz parte do tratamento com objetivos claros e dirigidos. A terapia pode ser em grupo ou individual, promovendo saúde física, social, emocional.

     Para que ocorram as visitas alguns cuidados devem ser tomados com o animal. O cão deve seguir um protocolo, estar com a vacinação e vermifugação em dia, não pode possuir pulgas, não deve ingerir carne crua e leite não pasteurizado. Os cães devem estar sadios e devem fazer visitas periódicas ao médico veterinário. Precisam ser avaliados por um treinador para serem adestrados e sociais. 

     O terapeuta deve realizar o rodízio com os cães, para possibilitar o descanso dos mesmos e proporcionar bem estar físico e emocional também ao animal, respeitando-o e reconhecendo suas limitações.

     As pessoas que participam das Terapias devem lavar as mãos antes e após o contato com o animal, evitar que o animal entre em contato com secreções como urina, fezes, vômitos e feridas dos pacientes. 

     A utilização do cão como recurso terapêutico é muito importante e podemos avaliar vários aspectos:

     Emocional: proporciona um ambiente mais agradável ao trabalhar a socialização, independente do grau de habilidade funcional do paciente e de seu comprometimento. Promove bem estar, estímulos emocionais e psicológicos ao paciente.

     Cognitivo: estimula o paciente a utilizar a memória sempre chamando o cão pelo nome, trabalha percepção visual e tátil ao utilizar animais de diferentes tamanhos e cores.

     Físico: estimula as habilidades motoras com repetições de movimentos como andar, correr, jogar bola e acariciar o animal, trabalhando postura, controle de tronco e cervical, etc.

     O uso do cão como co-terapeuta auxilia no tratamento de crianças com diferentes patologias, tornando o ambiente e a terapia mais dinâmica e colaborativa por parte do paciente.

     A FAA contribui com os tratamentos tradicionais de crianças e adolescentes, e foi verificado que o paciente é mais colaborativo com o uso do cão durante a terapia onde o paciente executa os exercícios e funções muitas vezes difíceis de serem realizados somente com uso de terapia tradicional.

     Os pacientes passam a aceitar de forma agradável as intervenções da terapia, tornando-a mais produtiva, obtendo assim um vínculo prazeroso entre o paciente e terapeuta.

     Em crianças e adolescentes portadores de necessidades especiais a atividade com animais pode ajudar na expressão de seus sentimentos, despertando curiosidades, afeto, espontaneidade.  A atividade por mais simples que seja como conduzir um animal em um circuito cria um vínculo entre animal/terapeuta e paciente, e ajuda a desenvolver nas crianças e adolescentes um sentimento de independência, pois o animal os trata da mesma forma sem distinguir suas deficiências.

     O cão também é usado como um recurso de comunicação entre terapeuta e paciente. Os cães podem favorecer o estímulo de diversas áreas dependendo do resultado que se queira alcançar. Podem ser trabalhadas estimulação senso-perceptivo global, formação de hábitos de independência pessoal, socialização, rotações de tronco, controle de cervical, noções de direita e esquerda, flexões de ombro, flexão e extensão de punho, extensão de dedos, força, coordenação, equilíbrio, entre outros.

       Os trabalhos realizados até hoje tiveram a intenção de traçar um panorama sobre esta intervenção em nosso meio, evidenciando com isso a necessidade da Fisioterapia e de outras áreas a participarem de discussões, pesquisas e projetos ampliando seu campo de atuação. Realizar descobertas com o objetivo de melhorar e tratar os pacientes. Sendo assim este trabalho visa contribuir para as perspectivas da Fisioterapia para um debate mais amplo das questões sobre este tema.

         O objetivo da pesquisa foi analisar as informações sobre a Fisioterapia Facilitada por Animais, mostrar a relação homem-animal, conhecer profundamente a Terapia com seus benefícios e dificuldades tanto para o paciente quanto para o terapeuta na fase de recuperação do paciente. Enfoca também a necessidade de rodízios dos cães, visando uma melhor qualidade de vida também do animal.

       A Fisioterapia Assistida por Animais tem por objetivo, introduzir o animal junto ao paciente com finalidade terapêutica, favorecer e auxiliar no processo de recuperação, enfocando no prazer, incentivo a reabilitação, na melhora da qualidade de vida e auxiliar nas atividades da vida diária (AVD). O cão é escolhido por ter a capacidade de restabelecer relações com as pessoas e intensificá-las.

    
Capítulo 1 - Revisão de Literatura
 
      O relato histórico mais antigo até  hoje encontrado sobre a relação Homem-Animal é a descoberta de um túmulo em Israel datado de 12 mil anos atrás. Foi encontrado o corpo de uma mulher idosa enterrada com um filhote de cachorro em suas mãos (DAVIS e VALLA, 1978 Apud DOMINGUES, 2007; ALTHAUSEN, 2006).

       Os cavalos e os lobos foram os primeiros animais a serem domesticados e não saíram do convívio com o homem. Algumas vezes os animais foram considerados como divindades, outras vezes utilizados como força de trabalho ou segurança (LUCENA et al, 2007; VACCARI et al, 2007; GEORGETTI et al, 2006).

       Para os cães o convívio no lar é resultado de mudanças sociais em que o homem tornou-se proprietário e líder numa relação de afeto onde o animal expressa sua obediência, lealdade, confiança e carinho inegociável.

     A domesticação aguçou a percepção de profissionais da área da saúde e humanas a utilizarem os animais, no tratamento e na recuperação de pacientes. E estes são considerados fontes de benefícios psicossociais, emocionais e de desenvolvimento motor.

     Os primeiros relatos que falam claramente sobre a utilização de animais no tratamento de enfermidades são do Retiro York na Inglaterra em 1792, instituição psiquiátrica que utilizava métodos terapêuticos considerados mais humanos para a época. William Tuke pioneiro no tratamento observou que os pacientes desta instituição conseguiram interagir com animais como um reforço positivo no tratamento que recebiam, e que os pacientes podiam aprender autocontrole cuidando de criaturas mais débeis que dependiam deles. Neste Centro de Reabilitação havia animais como coelho, galinha, gaivotas, aves domesticas e outros animais de granja. Acreditava-se que esses animais despertassem sentimentos de socialização e benevolência nos internos (ALTHAUSEN, 2007; BERGAMO, 2005).

     Em 1867 os animais eram utilizados no tratamento de pessoas epiléticas na instituição Bethel em Bielfield na Alemanha. Atualmente esta instituição é um sanatório de pacientes afetados por transtornos físicos e mentais e cuidar de animais como cachorro, gato, cavalos, entre outros animais é parte importante do tratamento.

     Em 1944 a Cruz Vermelha patrocinou um programa chamado Army Air Force Convalescent em Pawling em Nova York, em que foram utilizados animais para reabilitar aviadores.

     Em 1948 o Dr. Samuel B. Ross fundou em Nova York a Green Chimneys, uma fazenda que tratava da reabilitação de crianças e adolescentes com distúrbio de comportamento. Atualmente é uma das Instituições Mundiais mais prestigiosas destinada à reeducação infantil e juvenil utilizando as Terapias Assistidas por Animais.

      Em 1953 o Dr. Boris Levinson (com seu cão Jingles) sugeriu a utilização do animal como um Co-terapeuta. Levinson se tornou pioneiro nos anos 60, por utilizar esta Técnica em crianças com transtorno de comportamento, déficits de atenção e cardiopatias. Levinson em seu livro intitulado "Psicoterapia Infantil Assistida por Animais" relata experiências vividas junto com seu cachorro e pacientes. Segundo o psiquiatra, as crianças perdiam todas suas inibições e medos graças à presença do cão no consultório, favorecendo a comunicação entre médico e paciente, e o animal era um mediador útil para restabelecer os contatos sociais. Levinson em seu primeiro artigo "O cão como co-terapeuta" (1962) relata sua primeira experiência com o uso de animal, e considera que o animal pode suprir as necessidades emocionais do paciente permitindo assim uma maior liberdade de expressão, conforme citação a seguir:


   Faz apenas oito anos desde que um garoto, tratado sem sucesso durante longo período de tempo, foi trazido a mim por pais desesperados. Por causa de sua criança apresentar grau de comprometimento, a hospitalização havia sido recomendada. Hesitei em aceitar o caso mas aceitei fazer a entrevista diagnóstica. Com sorte, os pais distraídos chegaram uma hora antes do horário agendado. Eu estava ocupado escrevendo e meu cão estava deitado no chão se lambendo. Recebi a família sem demora, esquecendo o cão, que correu até o garoto para lambê-lo.

    Para minha surpresa, a criança não demonstrou medo, ao contrário, envolveu o cão e começou a acariciá-lo. Os pais queriam separá-los, mas assinalei que deixassem a criança. Após um tempo a criança perguntou se o cão sempre brincava com as crianças que vinham ao meu consultório. Tranqüilizada diante de minha resposta afirmativa a criança manifestou o desejo de voltar e brincar com o cão. Alguém poderá adivinhar o que teria acontecido com a reação da criança se o cão não estivesse presente naquela manhã?

    Por muitas sessões seguintes está criança, aparentemente inconsciente de minha presença, brincava com o cão. Gradualmente, como um pouco da atenção eliciada pelo cão espalhou para mim, eu fui incluso na brincadeira. Fomos, lentamente, estabelecendo um bom relacionamento de trabalho e eventual reabilitação deste jovem garoto (LEVINSON, 1962 apud ALTHAUSEN, 2006).

     Em 1966, Erling Stodahl, músico cego, fundou o Centro Beitostolen, na Noruega, para a reabilitação de cegos e incapacitados, utilizando cachorros e cavalos para trabalhar com pacientes. Muitos deles aprenderam montar a cavalo e a desfrutar de uma vida mais normal, que incluía uma atividade desportiva.

     Em 1974 Samuel e Elizabeth Corson elaboraram um programa de tratamento para avaliar a viabilidade da utilização de animais em ambiente hospitalar, e obtiveram excelentes resultados. Foram utilizados cães com 50 pacientes de um hospital psiquiátrico e a resposta foi uma melhora no quadro clínico dos pacientes, estimulando a comunicação, melhora da auto-estima, independência e capacidade de assumir responsabilidades. Segundo os psiquiatras os cachorros facilitam a interação com os pacientes pois estão sempre dispostos a oferecerem afeto, sentimento de responsabilidade em relação ao animal e despertam confiança para a maioria das pessoas atuando como recurso de contato com o paciente (ALTHAUSEN, 2007).

     No centro de Medicina Forense Darkwood em Ohio, David Lee, a assistente social do hospital psiquiátrico, utilizou animais incluindo aves, que atuavam como catalisadores das interações sociais entre funcionários e pacientes, reduzindo significativamente a violência desses pacientes.

     Em 1980 Erika Friedman, James Lynch e S. Thomas, publicaram um estudo com mais de 92 pacientes intitulado "Animais de companhia e sobrevivência de pacientes um ano depois de sair de uma unidade de cuidados coronários (Public Health Rep 95: 307-312)". De acordo com Lynch a falta de apoio social, o crescente isolamento e solidão humana são contribuições importantes para o aumento da morbidade e mortalidade em todas as nações pós-industriais, especialmente doenças coronárias. Estar com animais de estimação tem uma influência significativa sobre os indicadores psicológicos de estresse, hipertensão e ansiedade, diminuindo-os. Os cuidados com os animais exigem dedicação e motivam não só a troca afetiva, como também a prática de exercícios físicos.

     Em 1981, na Prisão feminina de Purdy em Washington, cães resgatados de canis, cujo destino seria o sacrifício, foram treinados para realizar a Terapia Assistida por Animais com pessoas reclusas. Foram obtidos os seguintes resultados: aumento da auto-estima, aprendizagem de um ofício e facilitação da reintegração na sociedade. Esses cães foram doados posteriormente para pessoas com deficiências (ZAMARRA, 2002).

     Em 1989 Redefer e Goodmann, realizaram um estudo com crianças autistas utilizando o cão, e observaram a possibilidade dos animais ampliarem a capacidade de contato entre os pacientes e o mundo em que vivem. As crianças apresentavam um comportamento menos autísticos quando acompanhadas do cão, possibilitando assim uma maior interação entre terapeuta e o ambiente (ALTHAUSEN, 2006).

     Anderson et. al. (1991) publicaram "Os proprietário de animais de estimação e fatores de risco de doenças coronárias" (Medical Jornal of. Austrália 157 (5): 298-301), onde verificaram que pessoas que possuem animais de estimação apresentavam níveis mais baixos de pressão arterial, colesterol e triglicérides.

     Em Setembro de 1998 foi realizada a Conferência Internacional de Interação entre Homens e Animais em Praga. Foi verificado então que 30% dos psiquiatras e psicoterapeutas utilizavam animais de companhia em suas Terapias (<http://www.arcabrasil.org.br>; AMORIM et al, 2003).

     No Brasil a percussora da Técnica foi Dra. Nise da Silveira (década de 50), médica psiquiátrica do Hospital Dom Pedro II, em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Ela realizou as primeiras tentativas nacionais do uso de animais com fins terapêuticos no Brasil. Neste contexto a Dr. Nise desenvolveu o conceito de afeto catalisador, onde o animal se tornava referência, facilitando assim o contato do paciente com o mundo em que vive (ALTHAUSEN, 2006; GARCIA et al, 2008).

     A Terapia Assistida por Animais (TAA) é pouco difundida no Brasil, porém em países como Estados Unidos, Austrália, alguns países Europeus e até mesmo no Egito já é bastante conhecida e utilizada (PEREIRA et al, 2007).

     Os animais são utilizados para facilitar a recuperação dos pacientes, tendo em vista está melhora do paciente alguns hospitais de São Paulo e Organizações contam com a visita destes animais para tal terapia (AMORIM et al, 2004).

     Algumas Instituições de Ensino oferecem curso sobre a TAA, porém não há muitas pesquisas na literatura brasileira que abordem este tema, de grande importância, para a reabilitação de pacientes idosos, crianças e adolescentes (PEREIRA et al, 2007; VACCARI et al, 2007).

     Em 2005, Jerson Dotti publicou o livro "Terapia & Animais" que é útil para quem se interessa pela utilização de animais no processo terapêutico analisando os benefícios do uso do animal em diferentes patologias.

     Em 2006, Karen Cristini Pires Timoteo dos Santos (fisioterapeuta) publicou o livro "Terapia Assistida por Animais: Uma Experiência Além da Ciência". Ela relata a utilização de cães em uma Instituição de crianças e adolescentes com problemas neurológicos, autistas, portadores de encefalopatia crônica infantil não-progressiva (ECINP), hidrocefalia, mielomeningocele, hidranencefalia, artrogripose, deficiência visual e auditiva entre outros. A publicação analisou a reação dos internos em contato com o animal, e sua colaboração durante os exercícios, as sensações e reações, abordando os aspectos emocionais, cognitivos e físicos, auxiliando no processo de melhora nas reabilitações dos pacientes em tratamento na instituição.

     Para Machado et. al. (2008) a Terapia Assistida por Animais é parte importante do tratamento, objetivando promover a melhora social, emocional, física e cognitiva dos pacientes, partindo do princípio de que o amor e a amizade podem surgir entre seres humanos e animais. Essa relação promove diminuição da depressão, da ansiedade e dos seus efeitos sobre o sistema nervoso, desenvolvimento psicomotor e sensorial a partir do contato direto com o animal, melhorando a socialização e a auto-estima do paciente.

     A TAA segundo o Delta Society (2009) tem como finalidade a melhora do funcionamento físico, emocional, social e cognitivo. A TAA é desenvolvida em diferentes ambientes, e pode ser em grupo ou individual, sendo assim todo o processo deve ser documentado e avaliado.

     Para se realizar um Projeto de TAA deve-se manter a ética profissional e alguns princípios básicos da TAA, como respeitar os limites dos Animais e dos Pacientes, promover bem estar do Paciente e do Animal, respeitar a privacidade das pessoas, valorizar o progresso do paciente, incentivar a ação do voluntariado, apoiar os familiares dos pacientes psicologicamente, valorizar o trabalho realizado pela TAA, manter a confiabilidade sobre os objetivos e procedimentos, trabalhar sempre em um ambiente limpo e sem riscos ao Paciente e ao Animal (DOTTI 2005 apud MAGALHÃES et al, 2009).

     Lembrando que todos os cães que participam das atividades devem ser avaliados por profissionais especializados (veterinários e adestradores), para que estejam aptos a participarem das atividades e/ou terapias, conforme a citação a seguir: (MAGALHÃES et al, 2009).


Contato da autora da Monografia: Daniele Gonçalves dani.agoncalves@hotmail.com

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