Atuação Fisioterapêutica na Prevenção de Úlceras de Decúbito em Hemiplégicos







É de fato confirmado, teoricamente, que as úlceras de decúbito são complicações secundárias inteiramente preveníveis; e são as alterações mais comuns que acontecem nos pacientes submetidos ao longo período de decúbito 3 . Nenhuma outra complicação da disfunção neurológica tem tanta possibilidade de ser prevenida, é tão difícil de manejar, e tão prejudicial à reabilitação do paciente e ao seu bem-estar geral quanto à perda da integridade da pele 15 .

Em função disso, todos os profissionais envolvidos na assistência de pacientes com incapacidades neurológicas precisam dividir as responsabilidades de estabelecer e manter um programa vigilante para prevenir danos aos tecidos moles 15,13,11,2 .

As estratégias para evitar o colapso cutâneo são posicionamento apropriado do paciente no leito ou em uma cadeira, assistência regular para possibilitar que o paciente mude de posição e cuidados meticulosos nos casos de incontinência urinária ou intestinal 12 .

Existem estratégias adequadas para o posicionamento do paciente hemiplégico. Estas destinam-se a otimizar a estimulação sensorial e incentivar a adoção de apoio de peso efetivo. Além disso, essas posições objetivam impedir complicações secundárias, além de inibir o desenvolvimento de tônus muscular anormal 9,5,6,7 .

O presente estudo teve como objetivo considerar um programa de prevenção de úlceras de decúbito para pacientes hemiplégicos internados no 5º andar do HUSM, contando com a colaboração da equipe de enfermagem para execução e conscientização da importância dessa medida preventiva, contribuir para minimizar a ocorrência de úlceras de decúbito em pacientes com hemiplegia imobilizados no leito e divulgar para os demais profissionais da área da saúde o posicionamento adequado do paciente hemiplégico.

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram estudados 13 pacientes hemiplégicos internados no 5º andar do Hospital Universitário de Santa Maria, no período de agosto a novembro de 2004.

Os pacientes foram avaliados diariamente quanto à freqüência das mudanças de decúbito durante 24 horas, através de uma ficha de controle colocada na pasta de evolução da enfermagem, e semanalmente o surgimento, localização e estágio das úlceras de decúbito através de uma ficha de avaliação elaborada para o estudo 12, 2 .

Foram analisados dois grupos: um grupo de pacientes que não foi submetido a intervenção fisioterapêutica o outro grupo em que ocorreu a intervenção fisioterapêutica com mudanças de decúbito e posicionamento adequado a aproximadamente cada 2 horas, contando com a colaboração da equipe de enfermagem, após essa estar devidamente esclarecida quanto aos propósitos do estudo e o correto posicionamento do paciente hemiplégico no leito.

Foram considerados do primeiro grupo, oito pacientes hemiplégicos que interaram no 5º andar do Hospital Universitário de Santa Maria no período de agosto a setembro de 2004, e do segundo grupo cinco pacientes hemiplégicos que internaram no período de outubro a novembro de 2004. Os pacientes somente foram analisados durante o período em que estiveram internados no 5º andar do Hospital Universitário de Santa Maria.

As análises estatísticas foram realizadas através dos testes paramétricos. Para os testes de normalidade utilizou-se dos testes de Kolmogorov-Smirnov e Shapiro-Wilks.

RESULTADOS

Os resultados obtidos no primeiro grupo estão apresentados nos gráficos I e II, que mostram o tempo de permanência em cada decúbito semanalmente e a quantidade de mudanças, e a ocorrência de úlceras de decúbito respectivamente. Os mesmos dados foram analisados no segundo grupo, os quais estão apresentados nos gráficos III e IV. Os locais acometidos por úlceras de decúbito estão registrados nos gráficos V e VI sendo o gráfico V referente ao primeiro grupo e o VI ao segundo grupo.

No primeiro grupo foi observado que os pacientes permaneciam a maior parte do tempo em decúbito dorsal e a quantidade de mudanças durante as 24 horas não eram realizadas a cada 2 horas. Isso justifica a alta incidência de úlceras de decúbito observadas nesse grupo. Porém na quinta semana de análise desse grupo observou-se uma redução da incidência de úlceras de decúbito e diminuição da permanência em decúbito dorsal em virtude da conscientização por parte da equipe de saúde salientada durante a realização desse estudo.

No segundo grupo, passou-se a observar o aumento da freqüência das mudanças com conseqüente redução da formação de úlceras de decúbito. Nas duas primeiras semanas ainda foram registradas úlceras de decúbito, porém a mudança de decúbito a cada duas horas também mostrou-se eficaz na regressão das úlceras de decúbito, sendo que nas duas últimas semanas de observação não foram registradas nenhuma úlcera de decúbito nos pacientes analisados.

 
 
 
 
 

DISCUSSÃO

As estratégias para evitar o colapso cutâneo são posicionamento apropriado do paciente no leito ou em uma cadeira e assistência regular para possibilitar que o paciente mude de posição periodicamente 2,12 .

Os dados obtidos com a realização desse estudo demonstraram uma influência benéfica da intervenção fisioterapêutica nos cuidados básicos do paciente hemiplégico.

No período inicial dessa pesquisa, observou-se que os pacientes permaneceram a maior parte das 24 horas em decúbito dorsal; quanto a quantidade de mudanças, ocorreram em média 6 durante o mesmo intervalo de tempo. Também notou-se um aumento na formação de úlceras de decúbito até a terceira semana de observação, porém a conscientização por parte da equipe de enfermagem da importância da prevenção, salientada durante a realização desse estudo, fica evidenciada pela diminuição da formação de úlceras de decúbito nas últimas semanas. Quanto ao local de incidência das úlceras de decúbito foram registradas em escápula, olécranos, sacro, cóccix, ísquios, maléolos fibulares e calcanhares, resultantes da maior permanência em decúbito dorsal. Nos trocânteres femurais relacionado com a posição em decúbito lateral e na região anterior da perna e próximo ao tornozelo decorrente do decúbito dorsal com as pernas cruzadas por várias horas.

No período de intervenção fisioterapêutica, estabeleceu-se uma rotina de trocas de decúbito e posicionamento adequado a cada 2 horas, com auxílio da equipe de enfermagem. Porém, essa rotina teve limitações em função da impossibilidade da permanência durante todo o tempo das responsáveis pela pesquisa e pelo número reduzido de profissionais da área de enfermagem para realizar esse procedimento. Mas, apesar disso, os objetivos da pesquisa foram alcançados, pois houve redução na permanência em decúbito dorsal, indicando que as mudanças ocorreram aproximadamente de 2 em 2 horas. Também notou-se nas duas primeiras semanas a formação de úlceras de decúbito na escápula, sacro, cóccix, ísquios e trocânteres femurais. É conveniente salientar, que as úlceras de decúbito registradas nessa fase da pesquisa sofreram regressão até que nas últimas semanas não se registrou nenhuma úlcera de decúbito nos pacientes dessa amostra. Logo, conclui-se que houve uma redução no número de úlceras de decúbito nos paciente hemiplégico após a intervenção fisioterapêutica e maior interação da equipe de enfermagem para os propósitos sugeridos nesse estudo.

CONCLUSÃO 

Os dados obtidos com a realização deste estudo demonstraram uma influência benéfica da intervenção fisioterapêutica nos cuidados básicos do paciente hemiplégico junto à equipe multidisciplinar.

Os materiais utilizados para posicionar o paciente de forma adequada estão disponíveis no ambiente hospitalar, como travesseiros, cobertores, lençóis e fronhas para confecção de rolos e cunhas. Todos estes materiais são de fácil manuseio e aplicação, desde que o cuidador tenha conhecimento dos posicionamentos adequados para o paciente hemiplégico.

Os métodos propostos são de fácil realização e os mesmos podem ser aprendidos por qualquer membro da equipe multidisciplinar, inclusive pelos familiares. O paciente beneficia-se desta integração pela redução das complicações causadas pela imobilidade no leito além de ajudar no seu restabelecimento e orientar os familiares quanto aos cuidados durante e após o período de hospitalização.

Ainda constatou-se, subjetivamente, que os pacientes tiveram redução das outras complicações secundárias à imobilidade no leito, como redução de contraturas, algias, melhora na tonicidade da musculatura paravertebral e auxílio na drenagem de secreções pulmonares.

A partir desse estudo, portanto, fica evidenciado a importância do trabalho em equipe visando a melhora dos cuidados básicos em saúde, pois é com iniciativas como essa que no futuro haverá condições de estabelecer um ambiente de recuperação adequado para o paciente, com todos os profissionais das diferentes áreas da saúde aceitando que cada um tem algo a acrescentar.

BIBLIOGRAFIA

1. BOBATH B. Hemiplegia no adulto: Avaliação e Tratamento. 1ª ed. São Paulo: Manole,1978.

2. BRUNNER & SUDDARTH, SMELTZER, S.C e BARE, B.G. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica . 7ª ed.Vol.1. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,1993.

3. CASH, M. S. Neurologia para fisioterapeutas. Rio de Janeiro: Editorial Premier, 2000.

4. CORMARCK, D.H. Histologia. 9 a ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan,1991.

5. DAVIES, P.M. Exatamente no Centro. São Paulo: Manole,1996.

6. DAVIES, P.M. Passos a Seguir. São Paulo: Manole, 1996.

7. DAVIES, P.M. Recomeçando Outra Vez. São Paulo: Manole, 1996.

8. FIGUEIREDO,N.M.A, MACHADO,W.C.A e PORTO,I.S. O Toque no Corpo e a Prevenção de Escaras. Revista de Enfermagem da UERJ. Edição Especial, p. 71-80, 1996.

9. GOMEZ, F. Hémiplégie: rééducation precoce de l'adulte. Montrouge: Editions John Libbey Eurotext,1988.

10. GUYTON, A.C. & HALL, J.E. Tratado de fisiologia médica. 9 a ed. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan, 1996.

11. KNOBEL, E. Condutas no Paciente Grave. 2ª ed. São Paulo: Atheneu, 1998.

12. KOTTKE, F.J & LEHMANN, J.F. Tratado de Medicina Física e Reabilitação de Krusen. 4ª ed. Vol.2. São Paulo: Manole,1994.

13. O'SULLIVAN, S. B. & SCHMITZ, T.J. Fisioterapia Avaliação e Tratamento . 2 a ed. São Paulo: Editora Manole, 1993.

14. PRYOR, J. A. & WEBBER, B. A. Fisioterapia para Problemas Respiratórios e Cardíacos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.

15. UMPHRED, D.A. Fisioterapia Neurológica. 2ª ed. São Paulo: Manole, 1994.

16. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA. p ró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa. Estrutura e apresentação de monografias, dissertações e teses. 5ª ed. Santa Maria: ED. da UFSM, PRPGP, 2000. 68p.


Autor(a): Carmen Silvia Benevides Fellippa
                 Aline Loupa Decken
                 Danise M. Bertoncheli Alves



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